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Chico Latim – Uma história de Peruíbe

Chico Latim, cearense de alma peruibana. Conheça a história desse cidadão de Peruíbe que ajudou a cidade a construir sua identidade.

Francisco “Chico Latim” de Castro Moura

Francisco de Castro Moura, nasceu em 21 de agosto de 1906, Fortaleza, estado do Ceará, filho de Joaquim de Castro Moura e Claudina Braga dos Santos.

Passou  a infância e adolescência em Fortaleza, nos arredores do Porto de Mucuripe, aprendendo com seu pai os ofícios do mar e da pesca. Trabalhou como marinheiro de barcos de pesca. Em 1932, com 26 anos, uniu-se a Lareana de Souza com quem teve seu primeiro filho, Osvaldo de Castro Moura. No ano seguinte nasce sua primeira filha, Cleonice.

Em 1934, com 28 anos,  Chico Latim veio para Itariri, onde passou a atuar no cultivo de arroz. Em contato com os pescadores de Peruíbe, logo fez amizade com todos e com seu jeito peculiar de nordestino, e sua habilidade para a pesca passou a ser respeitado como um igual e conquistou espaço na Companhia de Pesca de Matemote, Myashiro, Fugimura e Nahashiro. Recebia 200 mil réis por mês.
Em 1938 reuniu-se com Pescadores amigos da vila de Peruíbe e juntos decidiram por a Colônia de Pescadores para poder sediar uma Escola para os filhos dos moradores da Vila. Cada pescador contribuiu com 50 mil réis, a Prefeitura de Itanhaém doou o terreno, foi construída a Colônia dos Pescadores e os moradores ganharam uma escola.

Pescadores de Peruíbe, Arrastão. Agradecimento: Jorge Vitoriano

Em 1939, ainda em Itariri, nasce o terceiro filho, Orlando de Castro Moura.

Em 1942 Chico Latim transfere sua residência para a vila de Peruíbe, onde adquiriu um empório de secos e molhados, na esquina da Avenida São João com Avenida Padre Anchieta. Nesse local nasceu seu quarto filho, Nelson de Castro Moura.
Residiu em Itariri por 8 anos, até 1942. Com as economias juntadas nos anos como pescador da Companhia de Matemote comprou redes e passou a trabalhar com 18 pescadores da vila de Peruíbe, fazendo arrastões nas praias.

Em 1943 volta a Fortaleza para trabalhar novamente na Pesca junto ao Porto de Mucuripe. Em Fortaleza tirou a sua carteira de Pescador Profissional e em 1946 voltou para a vila que nunca esquecia. Peruíbe lhe tomou pelo coração.
As cartas que recebia de amigos davam conta de certo progresso na vila de Peruíbe e a inauguração da nova estrada até Juquiá dava nova esperança aos moradores.

Chico Latim, com esperança renovada, atendia visitantes e poucos turistas que apareciam na vila e mantinha a atividade de pescador.

Dona Cabocla

A vila de Peruíbe continuava com a vida pacata e acanhada. Pouca gente visitava,e os que vinham, eram na maioria pescadores e caçadores. Eram dias difíceis.

Para quebrar a monotonia e trazer mais vida e alegria aos moradores da vila, Chico Latim resolve fundar um bloco carnavalesco. No vésperas do carnaval de 1948, Chico Latim e a família, juntamente com Pescadores amigos e mais alguns moradores, reunidos decidiam qual seria o nome do bloco. Chico Latim só repetia – Na hora que se vê!
Surge o primeiro Bloco de Carnaval da Cidade, inaugurando um longo período de tradição carnavalesca da vila e depois da Cidade de Peruíbe. As cores do bloco eram o azul e o branco, que mais tarde inspirou as cores do Brasão Municipal.

Chico Latim

O outro cordão concorrente era o Peruibense, de  Antonio Geraldo. A disputa entre os dois blocos era acirrada, com muita batalha de confete e serpentina e muita alegria. Quando chegava o Carnaval formava-se a Banda que acompanha o Bloco de Chico Latim. Os velhos praianos ainda lembram como “era bonito de se ver”.

Mas passado o carnaval a vila voltava ao marasmo de sempre e era preciso trazer novas maneiras de aplacar essa falta de opções. Pensando numa maneira de oferecer opções de lazer para o povoado e com o auxílio de alguns amigos e políticos influentes, Chico Latim inaugurou em 1951, em um barracão na esquina da Avenida São João com a Padre Anchieta, o Cinema de Peruíbe, ou Cinema do Chico Latim, a maior contribuição cultural recebida pela Vila de Peruíbe até então.
A energia ainda era por gerador a diesel, e o cinema era só até as 22 horas, quando o gerador era desligado.

“Cheguei a passar filmes importantes aqui, até E O Vento Levou. Nesse dia saiu todo mundo de casa” – Chico Latim.

A primeira máquina era de 16mm, e depois foi trocada por uma de 32mm a carvão. Na bilheteria  ficava Dona Laureana, nessa época já conhecida como Dona Cabocla, como Seu Chico carinhosamente a chamava. Na portaria ficavam Nelson, seu filho e Altino, filho de Dona Izaura. Muitas vezes os meninos, sem condições de pagar pela entrada, ganhavam ingressos de Dona Cabocla em troca de buscar um peixe, ou uma farinha branca na vendinha.

“ O momento mais emocionante do cinema foi quando passou Hiroshima Meu Amor. O cinema lotou com os japoneses da colônia que havia em Itariri e Ana Dias. A pedido da comunidade nipônica o filme foi reprisado em Ana Dias e foi tamanha comoção que algumas pessoas desmaiaram”  – Nelson de Castro Moura.

Vieram muitos japoneses de trem, de outras localidades. A bomba atômica e a tragédia da guerra era o assunto daqueles dias.

O cinema depois de certo tempo serviu para outros eventos da Vila. Terminada a Sessão e Chico Latim tirava as cadeiras do centro  e começava o baile. Só homens pagavam, as damas entravam de graça.  Os músicos eram: Diocrésio tocando Rabeca, Álvaro Ivo no piston, Ranulfo Lacerda no clarinete, Antonio Geraldo no trombone, e mais alguns músicos que iniciaram a tradição musical da cidade. Os bailes começavam as 23 horas e varavam a madrugada até as 5 horas da manhã.

Em 1952 nasce o quinto filho de Chico Latim, Moacyr de Castro Moura.

Tive maleita 10 vezes em Peruíbe. O pai de Totó Mendes dizia pra eu não ir pra Peruíbe que eu só ia pegar maleita e bixo de pé. Nunca liguei pro conselho.”  –  Chico Latim.

Em 18 de março de 1954 Chico Latim é nomeado pelo Secretário de Segurança do Estado para ser suplente do subdelegado de polícia da Segunda Subdelegacia de Polícia de Peruíbe, Município de Itanhaém. No mesmo ano nasce sua segunda filha, Neci de Castro Moura.

Atuou durante todo o período anterior a emancipação da vila de Peruíbe como articulador e fomentador da independência da cidade, desde que houvesse garantia de melhorias para o povo.

Na década de 1960, com a cidade já emancipada, Chico Latim tomou parte em todos os movimentos políticos para fortalecer o Turismo e desenvolver a cidade com justiça para todos, defendendo o caiçara da exploração predatória que já chegava com a exploração imobiliária. Sua posição em defesa dos interesses dos caiçaras lhe rendeu alguns desafetos.

Em paralelo Chico Latim continuou realizando bailes carnavalescos inesquecíveis e disputados por moradores da região e turistas. Foram bailes grandiosos no antigo Bar Siri, que depois passou a ser o prédio da Câmara Municipal de Peruíbe, e hoje é Núcleo da Terceira Idade. 

Geraldo Russomano, primeiro prefeito da cidade, não cansava de elogiar os feitos de Chico Latim. Os carnavais alegres e contagiantes, blocos carnavalescos de rua e suas rainhas, que convidavam o povo a participar, o cinema que levava cultura àquele povo afastado dos grandes centros.

Chico Latim, com seu sorriso franco e sua consciência social, proporcionou ao praiano de Peruíbe cultura, alegria, identidade e dignidade. Francisco de Castro Moura, ou Chico Latim, ou Seu Chico viveu sempre junto à sua esposa Dona Cabocla, seus filhos, netos e amigos queridos até o dia 17 de abril de 1989.

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