Hoje, 18 de fevereiro, Peruíbe comemora seu aniversário — e a data convida a cidade a celebrar não apenas a sua emancipação, mas a sua grandeza histórica e cultural. Peruíbe é um lugar onde o Brasil parece conversar com ele mesmo: o Atlântico abrindo o horizonte, a Mata Atlântica guardando os vales e a Serra de Juréia-Itatins desenhando, ao fundo, a linha do tempo de um litoral que nunca foi só paisagem — sempre foi travessia, encontro e memória viva.
Antes de ser cidade, a região já era território indígena: a própria história municipal registra a existência da “Aldeia dos Índios Peroibe” e situa o espaço, no início da colonização, dentro da Capitania de São Vicente, eixo decisivo dos primeiros passos portugueses no litoral paulista.
É aí que Peruíbe ganha um capítulo que atravessa o século XVI e chega até nós em pedra, nome e ruína. A tradição local liga a formação do aldeamento ao trabalho jesuítico: em 1549, o padre Leonardo Nunes teria atuado na catequese na área onde já existia a Igreja de São João Batista; os indígenas o chamaram de “Abarebebê” (“padre voador”), e, alguns anos depois, em 1554, a narrativa municipal aponta a chegada de José de Anchieta ao aldeamento.
As Ruínas do Abarebebê não são apenas um ponto turístico: são um símbolo raro da fundação cultural do litoral sul. Documentos e publicações oficiais descrevem a antiga igreja como uma das mais antigas do país — por vezes identificada como a primeira, em razão do tipo de material empregado — e lembram sua função na missão jesuíta de catequizar povos indígenas na Aldeia de São João Batista. Pesquisas acadêmicas e registros locais reforçam o valor arqueológico do sítio, que permanece como um marco de origem, identidade e pertencimento.
E é impossível falar de Peruíbe sem falar de Itanhaém, porque por muito tempo as duas histórias caminharam juntas. A narrativa municipal lembra que a aldeia, depois do declínio, tornou-se vila de pescadores “sempre submetida ao município de Itanhaém”. Do outro lado, a memória histórica de Itanhaém registra expedições e caminhos costeiros que atravessaram a Praia de Peruíbe — chamada de “Praia de Tapirema” em relatos indígenas — e descreve o Colégio/Igreja de São João Batista como capela e ponto de “pouso” de viajantes, com acervo posteriormente transferido para igrejas de Itanhaém. Nesse enredo aparecem nomes que ajudam a situar o tempo: Martim Afonso de Sousa, Pedro Martins Namorado e Pêro Corrêa (associado às primeiras explorações e conflitos do período), lembrando que a costa do Abarebebê e dos Itatins esteve, desde cedo, no mapa do Brasil nascente.
Já no século XX, Peruíbe participa de outro movimento essencial da região: a transformação econômica ligada ao ciclo da banana. A história municipal destaca que, em 1914, a Estrada de Ferro Santos–Juquiá trouxe novos habitantes e impulsionou a bananicultura. Estudos sobre o Vale do Ribeira reforçam esse pano de fundo: apontam que o cultivo da banana se expandiu a partir da Baixada Santista e avançou ao longo da ferrovia, consolidando-se fortemente entre as décadas de 1940 e 1950, integrando território, trabalho e circulação de mercadorias.
E, costurando tudo isso, está a presença dos caiçaras — esse “povo anfíbio”, de mar e de mata, que ajuda a explicar por que Peruíbe é tão brasileira. Descrições oficiais sobre povos e comunidades tradicionais apontam os caiçaras como comunidades formadas ao longo do litoral do Sudeste e do Sul do Brasil, em especial entre o sul do Rio de Janeiro e o norte do Paraná, alcançando também São Paulo e Santa Catarina, com modos de vida marcados pela pesca artesanal, saberes transmitidos no cotidiano e vínculos profundos com a natureza. No patrimônio imaterial, isso aparece com força no Fandango Caiçara, registrado pelo IPHAN: uma manifestação que reúne música, dança e celebração, enraizada nas comunidades litorâneas do sul de São Paulo e do norte do Paraná — e que coloca Peruíbe dentro de um mapa cultural vivo, antigo e contemporâneo ao mesmo tempo.
E a história de Peruíbe também tem rosto, voz e alegria. No coração da memória popular, brilha Francisco de Castro Moura, o Chico Latim — figura querida e lembrada por fortalecer laços comunitários, incentivar cultura e ajudar a criar um espírito de festa que marcou gerações. Na construção política da cidade, nomes como Geraldo Russomanno e João Bechir aparecem associados ao movimento de emancipação, ao plebiscito de 24 de dezembro de 1958 e à formalização do município em 18 de fevereiro de 1959 — a razão pela qual hoje, 18 de fevereiro, é mais do que aniversário: é afirmação de identidade.
E, porque cidade é feita de famílias, trabalho e continuidade, este aniversário também é homenagem a quem ajudou a levantar Peruíbe no cotidiano: às famílias históricas que fazem parte da memória afetiva e comunitária — Família Popescu, Família Sodré, Família Piedade, Família Castro Moura (Chico Latim), Família Costa (de Jairo Costa), Família Almeida Santos, Família de Paula, Família Craice, Família Gaiofatto, Família Mendes, Família Caetano, Família Lacerda, Família Fernandes, Família Lima e tantas outras mais, e acima de tudo as famílias caiçaras e os povos originários que estão na raiz de tudo o que hoje somos, como cidade e povo tão especial.
Por tudo isso, homenagear Peruíbe é reconhecer uma cidade que não cabe só no presente. Ela é indígena em origem, jesuítica em vestígio, ligada profundamente à região em formação histórica, agrícola e ferroviária no impulso do século XX, e profundamente caiçara na alma — uma guardiã de cultura, natureza e memória no litoral sul paulista. Parabéns, Peruíbe! Que este 18 de fevereiro renove o compromisso de preservar nossas histórias — das ruínas à música, do trabalho à festa, da mata ao mar — e de seguir valorizando o que faz desta cidade um patrimônio: sua importância histórica, sua cultura viva e o seu povo.


