Existe um fenômeno muito parecido entre o Brasil e Peruíbe: uma sensação coletiva permanente de decadência, mesmo quando diversos indicadores mostram evolução concreta em várias áreas.
Isso não significa negar problemas reais. Peruíbe ainda enfrenta desafios importantes em mobilidade, saúde, sazonalidade econômica, ocupação urbana irregular e desigualdade social. Mas também é verdade que a cidade mudou bastante nos últimos anos — e boa parte dessa transformação acaba invisível no debate cotidiano.
Peruíbe hoje possui um IDHM de aproximadamente 0,75, considerado alto desenvolvimento humano para padrões brasileiros.
Ao mesmo tempo, o município avançou em áreas estruturais que impactam diretamente a qualidade de vida.
No saneamento, por exemplo, a cidade atingiu cobertura praticamente universal de abastecimento de água, atendendo 100% da população, acima da média nacional. A coleta de resíduos domiciliares também supera 97% da população.
Na questão ambiental, Peruíbe consolidou uma característica rara no litoral brasileiro: preservar grande parte de sua Mata Atlântica enquanto continua expandindo sua atividade turística. A cidade mantém protagonismo ambiental na região, com forte presença de unidades de conservação, políticas ambientais e participação ativa de conselhos municipais ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e turismo.
O turismo, aliás, deixou de ser apenas “veraneio de temporada” e passou a se tornar uma matriz econômica mais estruturada. O próprio Plano Diretor de Turismo reconhece o potencial ecológico, cultural e sustentável de Peruíbe como eixo estratégico de desenvolvimento econômico.
Eventos culturais, ecoturismo, turismo de natureza, esportes, gastronomia e atividades ligadas ao mar começaram a movimentar a cidade de forma mais distribuída ao longo do ano.

Na infraestrutura urbana, apesar das críticas constantes — muitas delas legítimas — houve ampliação de intervenções viárias, melhorias em iluminação pública, reurbanizações, expansão de pavimentação em bairros antes esquecidos e fortalecimento gradual dos instrumentos de planejamento urbano. A revisão recente do Plano Diretor mostra justamente uma tentativa de modernização da gestão territorial da cidade.
Na educação e participação social, Peruíbe também passou a desenvolver mais ações ligadas à educação ambiental, inclusão comunitária e fortalecimento dos conselhos municipais. Pode parecer detalhe burocrático, mas cidades que possuem participação institucional organizada normalmente conseguem evoluir mais de forma sustentável no longo prazo.
O ponto central talvez seja outro: Peruíbe ainda carrega uma cultura psicológica de cidade “abandonada”, formada ao longo de décadas de crescimento desordenado, promessas não cumpridas e baixa autoestima regional.
Então acontece algo parecido com o Brasil:
qualquer problema vira prova de fracasso absoluto, enquanto melhorias reais passam despercebidas porque já foram incorporadas ao cotidiano.
Quando uma rua é asfaltada, rapidamente vira “obrigação”.
Quando o turismo cresce, dizem que “não muda nada”.
Quando indicadores ambientais melhoram, isso quase nunca vira assunto.
Mas qualquer buraco, fila ou crise ganha imediatamente a sensação de colapso permanente.
E isso produz um efeito perigoso: a cidade perde a capacidade de reconhecer aquilo que funciona e, portanto, também perde a capacidade de replicar acertos.
Peruíbe ainda está longe do ideal. Mas também está longe daquela cidade praticamente estagnada de décadas atrás.
Hoje existe:
- economia turística mais organizada;
- maior valorização ambiental;
- crescimento do ecoturismo;
- expansão urbana mais planejada;
- fortalecimento institucional;
- melhoria gradual de infraestrutura;
- indicadores sociais superiores à média de muitos municípios brasileiros do mesmo porte.
O desafio talvez seja justamente amadurecer a percepção coletiva:
conseguir enxergar os problemas sem apagar os avanços.
Fontes:
