Peruíbe, tradicionalmente conhecida como um destino turístico no extremo da Baixada Santista, pode estar prestes a assumir um papel completamente diferente no desenvolvimento do estado de São Paulo. Localizada entre o litoral e o Vale do Ribeira, a cidade sempre ocupou uma posição estratégica no mapa, mas raramente foi tratada como protagonista. Agora, com o avanço dos estudos para a implantação da ferrovia Santos–Cajati, esse cenário começa a mudar. A proposta coloca Peruíbe no centro de uma transformação estrutural que envolve mobilidade, logística, economia e reorganização urbana de toda a região.
Do abandono à retomada: a ferrovia que marcou época
O projeto conduzido pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) representa mais do que a retomada de trilhos antigos. Trata-se de uma reconstrução completa de um corredor ferroviário que já teve papel relevante no passado, mas que foi abandonado ao longo das décadas. No início do século XX, a ferrovia que cortava o litoral sul paulista era essencial para o transporte de passageiros e para o escoamento da produção agrícola do Vale do Ribeira até o Porto de Santos. Esse sistema começou a perder força a partir da década de 1960, com a expansão das rodovias, especialmente a Régis Bittencourt, consolidando o domínio do transporte rodoviário. O serviço de passageiros foi encerrado em 1997, e o transporte de cargas deixou de operar no início dos anos 2000, deixando para trás uma infraestrutura subutilizada e regiões inteiras dependentes de estradas muitas vezes precárias.
Novo projeto prevê ligação entre Santos e Cajati
A nova proposta da CPTM busca reverter esse cenário com a implantação de uma ferrovia moderna, projetada para operar com transporte misto de passageiros e cargas. O traçado previsto terá entre 223 e 233 quilômetros de extensão, conectando Santos a Cajati e atendendo diversas cidades ao longo da Baixada Santista e do Vale do Ribeira. A estimativa é de que o sistema atenda diariamente entre 28 mil e 32 mil passageiros, além de viabilizar o transporte de cerca de 600 contêineres por dia, o que reforça o caráter logístico do projeto.
Na prática, o impacto mais imediato será sentido na mobilidade. Hoje, o deslocamento entre Santos e Peruíbe pode facilmente ultrapassar duas horas em períodos de tráfego intenso. Com a implantação do trem, esse tempo cairia para aproximadamente 48 minutos no serviço parador. Já o trajeto completo entre Santos e Cajati poderá ser feito em cerca de duas horas e vinte minutos no serviço expresso, enquanto o trecho entre Peruíbe e Cajati deve levar pouco menos de duas horas. Essa redução altera significativamente a dinâmica de deslocamento na região e cria novas possibilidades tanto para trabalho quanto para moradia.
Peruíbe como hub intermodal
Dentro desse contexto, Peruíbe assume um papel estratégico. A cidade não será apenas mais uma estação ao longo da linha, mas sim um ponto de divisão operacional entre dois trechos com características distintas: o eixo urbano da Baixada Santista e o corredor produtivo do Vale do Ribeira. Essa posição transforma o município em um potencial hub intermodal, onde diferentes formas de transporte podem se integrar de maneira eficiente. A presença de um terminal estruturado permite a conexão entre trens, ônibus e transporte rodoviário de cargas, reduzindo o volume de caminhões circulando dentro da cidade, diminuindo o risco de acidentes e melhorando a fluidez do trânsito local.

O impacto econômico tende a ser ainda mais relevante no Vale do Ribeira, uma das regiões menos desenvolvidas do estado, apesar de seu enorme potencial produtivo. Atualmente, a produção agrícola, com destaque para banana e palmito, depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, o que encarece a logística e reduz a competitividade dos produtos. Com a ferrovia, o escoamento passa a ser mais rápido, barato e eficiente, criando uma ligação direta com o Porto de Santos e ampliando o acesso a mercados consumidores. A previsão de movimentação diária de contêineres indica que o projeto não é apenas uma solução de mobilidade, mas um verdadeiro eixo de desenvolvimento econômico.
Turismo e nova dinâmica urbana
Além da logística, o transporte de passageiros também abre novas perspectivas para o turismo e para a ocupação urbana. O Litoral Sul, que hoje sofre com a sazonalidade e com as dificuldades de acesso, pode se tornar mais atrativo tanto para visitantes quanto para novos moradores. A melhoria no deslocamento permite que pessoas residam em cidades como Peruíbe e trabalhem em polos econômicos como Santos, reduzindo a pressão sobre grandes centros urbanos e incentivando um crescimento mais equilibrado. Ao mesmo tempo, a ferrovia facilita o acesso ao Vale do Ribeira, região que abriga o maior contínuo de Mata Atlântica do Brasil e possui grande potencial para o ecoturismo.
Integração com o Trem Intercidades
O projeto também está inserido em um plano mais amplo de mobilidade ferroviária no estado de São Paulo. A futura integração com o Trem Intercidades, que pretende ligar a capital a Santos em cerca de 90 minutos, cria a possibilidade de um corredor contínuo entre São Paulo, Baixada Santista e interior. Isso significa que, no futuro, será possível atravessar diferentes regiões do estado utilizando transporte ferroviário integrado, com maior eficiência e menor impacto ambiental.
O investimento estimado para a implantação da ferrovia varia entre 16 bilhões e 21 bilhões de reais, e a expectativa é que o projeto seja viabilizado por meio de Parceria Público-Privada ou concessão. Atualmente, a iniciativa ainda está em fase de estudos e anteprojeto, sem cronograma definitivo para início das obras, o que indica que se trata de um planejamento estratégico de médio a longo prazo.
Um novo papel para Peruíbe
O projeto não representa apenas o retorno dos trens ao Litoral Sul, mas uma mudança estrutural na forma como a região se conecta, produz e cresce. Nesse novo cenário, Peruíbe deixa de ser vista como um ponto periférico e passa a ocupar uma posição central, como elo entre o litoral e o interior, entre o turismo e a produção, entre o passado ferroviário e um futuro baseado em mobilidade inteligente e integração regional.
Fontes:
CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos); Governo do Estado de São Paulo; AEAMESP; Click Petróleo e Gás; Sampi; dados históricos da ferrovia Santos–Juquiá.
